Este texto inaugura uma série de reflexões sobre relações humanas, vínculos, expectativas e consciência emocional na contemporaneidade. Ele funciona como um texto-guarda‑chuva, a partir do qual outros temas serão aprofundados.
Tenho ouvido, com cada vez mais frequência, relatos muito parecidos: pessoas que não conseguem criar novas amizades, mantê-las ou aprofundá-las. No meu cotidiano, em contato diário com muitas pessoas, especialmente mulheres, um ponto em comum aparece de forma recorrente: a dificuldade de estabelecer vínculos com outras mulheres.
Algumas mantêm amizades da infância, hoje resignificadas — encontros pontuais ao longo do ano, datas especiais, eventos. Outras já não têm mais esses laços antigos e tentam, sem muito sucesso, construir novas conexões. Independentemente do cenário, algo se repete: parece faltar uma “cola social”.
Mas o que seria isso?
⭐ Vínculos precisam de tempo (e presença)
Para conhecer alguém de verdade, é necessário tempo. E tempo significa convivência. Estar junto, repetir encontros, atravessar silêncios, observar reações, compartilhar experiências — não apenas informações. Por isso, não é raro que novas amizades surjam no ambiente de trabalho. Estamos ali vários dias da semana, há pontos em comum, tarefas compartilhadas, desafios semelhantes. Da convivência, pode nascer uma amizade.
O paradoxo é que vivemos na era da hiperconexão. Em poucos dias, às vezes horas, já se sabe muito sobre a outra pessoa — e ela sobre nós. Histórias, opiniões, gostos, dores. Há uma sede insaciável por troca, que rapidamente esgota os assuntos. E depois? Depois, muitas vezes, vem o vazio. O recomeço. O próximo contato. O próximo interesse.
Você já presenciou isso?
Relações “turistas”
Algumas pessoas se comportam como turistas nas próprias relações. De tempos em tempos, mudam de interesse, de atividade, de grupo. Zygmunt Bauman descreve esse fenômeno ao falar da modernidade líquida, em que os vínculos tendem a ser frágeis, rápidos e facilmente descartáveis. Podem estar extremamente envolvidas em um novo projeto — fazer novas amizades, por exemplo — e, pouco tempo depois, já não querem mais aquilo. Às vezes, se arrependem. Às vezes, simplesmente desaparecem.
Tudo o que acontece conosco tem relação conosco. Isso não é uma frase de efeito, mas um convite à reflexão. O que chega até nós — seja positivo ou desafiador — encontra algum ponto de contato com quem somos, com nossas crenças, expectativas e padrões.
🍂 Quando o outro não entrega o que esperamos
Como já observava Carl Gustav Jung, “até você se tornar consciente, o inconsciente dirigirá sua vida e você chamará isso de destino”. Muitas das frustrações nas relações surgem justamente desse ponto: expectativas não examinadas, projeções inconscientes, tirar conclusões e a esperança de que o outro supra aquilo que ainda não está integrado em nós. Muitas pessoas relatam frustração: sentem que não são escutadas, que não recebem na mesma medida o que oferecem. Mas isso também diz respeito ao EU — ou, como Jung nomearia, ao Self.
“Quando não sabemos para onde ir, qualquer caminho serve.” Essa frase traduz bem o momento de muitos. Seguir fazendo o que sempre foi feito parece mais seguro. Afinal, já se vive e se pensa de determinada forma há tanto tempo… quem sabe, em algum momento, funcione.
Esse pensamento carrega muitas camadas: crenças sobre segurança, pertencimento, rejeição, esforço e merecimento. Quando observamos o desfecho dos nossos projetos relacionais — aqui, especificamente, as amizades —, podemos perceber algo curioso: ou há muitos pontos em comum entre as histórias, ou descobrimos que estávamos repetindo o mesmo padrão psicológico, com pessoas diferentes.
🌀 Padrões que se repetem
Nossos padrões de pensamento e crença orientam nosso comportamento de forma automática. Dia após dia, ano após ano, entramos e saímos de relações muito semelhantes, com a esperança silenciosa de que “agora vai ser diferente”.
O que pode, de fato, ser diferente são as escolhas que você faz por você e com você.
Não somos responsáveis pelos outros. Somos responsáveis pelas nossas escolhas, pensamentos e ações.
Talvez observar esses padrões seja difícil. Talvez seja necessário apoio profissional — e vale dizer: existem muitos profissionais éticos e competentes. Algumas pessoas se fecham por medo de rótulos ou porque tiveram experiências frustrantes com a terapia. Ainda assim, buscar ajuda pode ser um gesto de cuidado, não de fraqueza.
Perguntas que abrem caminhos
Se você não está onde gostaria, não se sente satisfeita(o) ou percebe que não constrói relações que impulsionam seu crescimento, talvez seja hora de repensar a caminhada — não como quem se cobra, mas como quem se escuta.
Algumas perguntas simples podem abrir esse processo:
- Quem sou eu hoje?
- Do que eu gosto?
- Do que eu não gosto?
- Do que eu tenho medo?
- O que eu amo?
- Quais são meus talentos?
Não tente responder a todas essas questões de uma única vez — e muito menos como se fossem verdades imutáveis.
Nada é permanente. Por mais que isso nos assuste, é assim que a vida acontece.
Carl Rogers dizia algo que considero um paradoxo precioso:
“Quando eu me aceito como eu sou, eu mudo.”
Isso significa que é natural, ao longo da vida, termos opiniões diferentes das que já tivemos. Aquilo que um dia pareceu tão certo e definitivo talvez hoje já não faça mais sentido — e está tudo bem.
Isso não tem a ver com ser “falsa(o)”.
Tem a ver com se conhecer.
No contexto em que você estava, aquilo era verdade.
Agora, com mais experiências, mais informações e mais nuances, suas crenças podem se reorganizar. Isso não é incoerência — é amadurecimento.
E, se pensarmos bem, isso não é incrível?
Quando nos conhecemos melhor, evitamos desperdiçar energia em relações que não poderiam frutificar.
Por que dizer que gosta de algo se, na verdade, não gosta?
É natural que, enquanto espécie relacional, queiramos agradar. Especialmente no início de uma relação — seja amizade ou vínculo amoroso — queremos nos aproximar, não afastar.
Mas é justamente aí que muitas pessoas se perdem: anulam vontades, silenciam preferências e moldam a própria personalidade para tentar garantir a permanência do outro.
Mas como alguém pode gostar de você… se você não está sendo você?
Quando reiteramos gostar do que o outro gosta, sem gostar de verdade, projetamos apenas um espelho. E relações sustentadas por espelhos dificilmente criam raízes.
Talvez você se pergunte:
“Mas como conhecer alguém se não for assim?”
Vale uma pausa honesta:
Isso tem funcionado para você?
Você está no relacionamento que imaginava?
Está cercada de pessoas que te nutrem?
Muitas pessoas evitam iniciar novas amizades ou relações porque acreditam que “dá muito trabalho”, “não têm tempo” ou porque “não querem contar tudo de novo se a pessoa depois some”.
Por esses motivos — e outros — acabam retornando a relações antigas.
O familiar dá uma falsa sensação de economia de tempo. Afinal, já se conhece a pessoa, já se pulam etapas. Mas, na prática, isso pode nos manter presos aos mesmos padrões.
E quanto mais alimentamos esse ciclo, mais difícil se torna rompê-lo.
✨ Um pequeno checklist de reflexão
Talvez este exercício simples ajude:
- Observe seus relacionamentos mais próximos.
- Anote, com honestidade, por que você acredita que não deu certo?
- Como era o comportamento dessas pessoas?
- Como era o seu comportamento com elas?
- Sobre o que conversavam? Do que riam? O que evitavam?
As respostas podem não vir de imediato. Mas a reflexão sincera é, muitas vezes, o início de uma nova forma de se relacionar — consigo e com o outro.

Referências e inspirações
- Jung, C. G. — O Eu e o Inconsciente; A Natureza da Psique
- Bauman, Z. — Amor Líquido; Vida Líquida