Voltar para casa

Talvez a saudade mais profunda que sentimos não seja de um lugar. Seja de uma versão de nós mesmos que, em algum momento da vida, se sentiu em paz.

Há dias em que tudo o que conseguimos pensar é:

“Queria voltar para casa.”

Curiosamente, muitas vezes já estamos em casa quando esse pensamento aparece.

Estamos na sala.

No quarto.

Na cozinha.

Na cidade onde sempre vivemos.

Mesmo assim, algo dentro de nós continua procurando um lugar que parece distante.

Talvez porque essa casa nunca tenha sido apenas um endereço.

Existe uma palavra muito bonita que não tem tradução exata em português: nostalgia.

Costumamos associá-la ao passado.

À infância.

À casa dos avós.

Ao cheiro de café recém-passado.

À janela aberta numa tarde de verão.

Mas talvez a nostalgia fale menos sobre o tempo e mais sobre uma sensação.

A sensação de pertencimento.

De segurança.

De descanso.

Na psicologia, sabemos que nossa necessidade de segurança emocional começa muito antes de compreendermos o mundo com palavras. A Teoria do Apego, desenvolvida por John Bowlby, mostrou que os primeiros vínculos da vida ajudam a construir aquilo que chamamos de base segura: a experiência de saber que existe um lugar — físico ou emocional — para onde podemos voltar quando sentimos medo, tristeza ou incerteza.

Com o passar dos anos, porém, a vida muda de ritmo.

As agendas ficam cheias.

As notificações não param.

Os compromissos se multiplicam.

Vivemos entre reuniões, prazos, mensagens, expectativas e decisões.

Quase sem perceber, aprendemos a permanecer ocupados.

Mas nem sempre presentes.

É curioso.

Temos mais formas de nos comunicar do que em qualquer outro momento da história.

E, ainda assim, muitas pessoas experimentam uma profunda sensação de isolamento.

A casa continua de pé.

Mas o abrigo parece distante.

Talvez porque exista uma diferença entre estar cercado de pessoas e sentir-se verdadeiramente acolhido.

Donald Winnicott dizia que um ambiente suficientemente bom permite que a pessoa desenvolva seu verdadeiro self — a capacidade de existir sem precisar esconder quem é.

Talvez seja isso que nosso coração procure quando diz que quer voltar para casa.

Um lugar onde não seja necessário provar valor.

Nem convencer ninguém.

Nem corresponder o tempo inteiro.

Um lugar onde possamos simplesmente existir.

E, curiosamente, essa casa pode começar a ser construída dentro de nós.

Não significa viver sem problemas.

Nem eliminar a correria.

Os imprevistos continuarão acontecendo.

Haverá dias difíceis.

Planos que não darão certo.

Mudanças inesperadas.

Perdas.

Mas existe algo profundamente humano acontecendo mesmo no meio do caos.

A possibilidade de criar raízes.

De cultivar vínculos verdadeiros.

De encontrar pequenos refúgios na rotina.

Uma conversa sem pressa.

Um café compartilhado.

O cheiro da chuva.

O abraço de alguém querido.

Um livro.

O silêncio.

A oração, para quem encontra nela sentido.

A contemplação.

A terapia.

Esses momentos não interrompem a vida.

Eles nos devolvem a ela.

Talvez voltar para casa seja justamente isso.

Não regressar ao passado.

Mas construir, pouco a pouco, um lugar interno onde possamos respirar.

Carl Rogers escreveu que “o bom viver é um processo, não um estado de ser”. Talvez nossa casa também seja.

Ela não está pronta.

Ela é construída cada vez que fazemos escolhas mais coerentes com quem somos.

Cada vez que estabelecemos um limite.

Cada vez que cuidamos de um vínculo importante.

Cada vez que encontramos beleza onde antes existia apenas pressa.

Talvez a vida nunca deixe de ser imprevisível.

Mas isso não significa que ela precise deixar de ser bonita.

Porque algumas flores aprendem justamente a nascer entre as pedras.

E talvez nós também.


Uma semente para cultivar

Hoje, antes de dormir, faça uma pergunta diferente.

Não pergunte apenas:

“Onde eu gostaria de estar?”

Pergunte também:

“O que faz eu me sentir em casa?”

Talvez a resposta não seja um lugar.

Talvez seja uma pessoa.

Um valor.

Um hábito.

Ou a versão mais verdadeira de você mesmo.


✦ Notas do Coração

Pequenas reflexões para cultivar uma vida com mais afeto, presença e sentido.

Espero que você esteja bem.

Com carinho,
Regiani

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