Talvez aquilo que mais desejamos transformar em nós seja justamente aquilo que ainda não aprendemos a escutar.
Existe uma expressão que ouvimos bastante:
“cura interior”.
Ela aparece em conversas, livros, músicas e diferentes caminhos de reflexão sobre a vida.
Embora não seja um conceito técnico específico da Psicologia, muitas pessoas utilizam essa expressão para falar de processos de autoconhecimento, elaboração de experiências e transformação pessoal.
E talvez seja justamente aí que exista uma pergunta interessante:
O que estamos tentando curar dentro de nós?
Talvez não seja necessário apagar uma história.
Nem esquecer o que aconteceu.
Nem chegar a um momento mágico em que nada mais nos incomode.
Talvez seja algo mais profundo: compreender.
Compreender por que determinadas situações nos atravessam de determinada maneira.
Por que algumas palavras despertam reações tão intensas.
Por que repetimos certos comportamentos mesmo quando percebemos que eles não nos fazem bem.
Por que, diante de algumas pessoas, voltamos a nos sentir pequenos.
Por que às vezes fugimos justamente daquilo que desejamos.
Por que continuamos procurando, no presente, respostas para perguntas que nasceram há muito tempo.
Aquilo que não conhecemos em nós
Na perspectiva da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, existe em nós uma dimensão que nem sempre conhecemos completamente.
Jung chamou de sombra alguns aspectos da personalidade que tendemos a rejeitar, esconder ou não reconhecer em nós mesmos.
A sombra, nesse sentido, não precisa ser entendida como algo mau.
Pode representar também partes de nós que aprendemos, ao longo da vida, que não eram aceitáveis, desejáveis ou bem-vindas.
A criança que ouviu que precisava ser forte talvez tenha aprendido a esconder sua fragilidade.
Aquela que precisou agradar pode ter dificuldade de reconhecer a própria raiva.
Quem recebeu pouco espaço para se expressar talvez tenha aprendido a silenciar seus desejos.
E aquilo que um dia foi uma maneira de se adaptar pode continuar aparecendo muitos anos depois, mesmo quando o contexto já mudou.
É aqui que podemos começar a falar sobre padrões.
Quando aquilo que um dia ajudou deixa de fazer sentido
Um padrão não é simplesmente um defeito de personalidade.
É uma maneira que pode se tornar recorrente de perceber situações, sentir emoções e responder ao mundo.
Muitos desses padrões têm uma história.
Podem ter se desenvolvido em determinados contextos como formas de adaptação, proteção, pertencimento ou aprendizagem.
Talvez você tenha aprendido a não dizer “não” porque, em algum momento, discordar trouxe consequências difíceis.
Talvez tenha aprendido a não pedir ajuda porque precisou se virar sozinho.
Talvez tenha aprendido a desconfiar porque confiar já foi muito doloroso.
Talvez tenha aprendido a controlar tudo porque a imprevisibilidade um dia foi assustadora.
E talvez hoje você esteja vivendo uma realidade completamente diferente daquela em que esses padrões se desenvolveram.
Ainda assim, pensamentos, emoções e comportamentos podem continuar respondendo de maneiras que fizeram sentido em outro momento da vida.
Perceber isso não é motivo para se culpar.
É uma oportunidade de se conhecer.
E como começamos a mudar?
Talvez o primeiro passo não seja tentar mudar imediatamente.
Talvez seja observar.
Perceber:
Quando isso acontece comigo?
O que eu sinto?
O que penso nesse momento?
O que costumo fazer depois?
O que estou tentando evitar?
O que estou tentando conseguir?
E talvez uma das perguntas mais importantes:
Essa maneira de responder ainda combina com a pessoa que estou me tornando?
Porque mudar não significa lutar contra quem fomos.
Significa reconhecer nossa história o suficiente para podermos escolher, com mais liberdade, quem queremos ser.
Você não precisa se tornar outra pessoa
Carl Rogers, uma das grandes referências da Psicologia Humanista, descreveu um paradoxo importante do processo de mudança: quando conseguimos nos reconhecer e aceitar com maior abertura, criamos condições para que mudanças genuínas possam acontecer.
Existe algo muito bonito nessa ideia.
Não precisamos odiar a pessoa que fomos para nos tornarmos alguém diferente.
Não precisamos declarar guerra aos nossos padrões.
Podemos começar perguntando:
O que esse padrão tentou fazer por mim?
Talvez tenha sido uma maneira de buscar segurança.
Talvez tenha ajudado você a preservar um vínculo.
Talvez tenha permitido atravessar uma fase difícil.
Talvez tenha sido uma forma possível de lidar com aquilo que, naquele momento, parecia grande demais.
Compreender a função que determinado comportamento teve em nossa história não significa que precisamos mantê-lo para sempre.
Algumas coisas podem ter sido necessárias naquela época.
E podem não ser necessárias agora.
É possível aprender novas formas de se relacionar.
De colocar limites.
De pedir ajuda.
De lidar com a frustração.
De receber afeto.
De escolher.
De existir.
E talvez esse seja um dos sentidos mais bonitos da transformação:
não se tornar outra pessoa, mas tornar-se cada vez mais capaz de escolher a própria maneira de estar no mundo.
A terapia não precisa decidir por você
Talvez algumas pessoas cheguem à psicoterapia esperando encontrar alguém que finalmente lhes diga o que fazer.
Isso também pode fazer parte da história de cada pessoa e da maneira como ela aprendeu a buscar segurança, orientação ou aprovação.
Mas a psicoterapia não precisa ocupar esse lugar.
O trabalho psicológico pode oferecer um espaço profissional de escuta, reflexão e autoconhecimento no qual pensamentos, emoções, relações e padrões podem ser compreendidos dentro da história singular de cada pessoa.
O psicólogo pode ajudar a pessoa a ampliar sua compreensão sobre si mesma e a construir, dentro de seu próprio processo, novas possibilidades de escolha.
A autonomia não nasce quando alguém nos entrega respostas.
Ela cresce quando aprendemos a formular nossas próprias perguntas.
Talvez você não esteja quebrado
Existe uma diferença importante entre querer mudar e acreditar que existe algo errado em nós que precisa ser consertado.
Nem tudo aquilo que desejamos transformar precisa ser tratado como uma falha.
Às vezes, estamos diante de uma parte de nossa história que precisa ser compreendida.
Às vezes, precisamos aprender algo novo.
Às vezes, precisamos elaborar uma experiência.
Às vezes, precisamos simplesmente reconhecer que determinada forma de viver já não combina conosco.
E tudo isso faz parte de você.
Você pode mudar de opinião.
Pode rever suas crenças.
Pode construir novos sonhos.
Pode perceber que determinados relacionamentos já não fazem sentido.
Pode descobrir novas maneiras de amar.
Pode aprender a dizer não.
Pode permitir-se dizer sim.
Pode descobrir uma versão sua que ainda não conhecia.
E está tudo bem.
Porque a vida não é uma prova de coerência.
Ela é também um processo de desenvolvimento.
Há coisas que compreenderemos aos vinte anos que não compreendíamos aos quinze.
Outras só farão sentido aos quarenta.
E algumas talvez precisem de uma vida inteira.
Isso também é humano.
O que em você está pedindo para ser compreendido?
Talvez hoje você não precise perguntar:
“Como eu me curo?”
Talvez possa começar por uma pergunta mais gentil:
“O que em mim está pedindo para ser compreendido?”
Pode ser uma emoção.
Um medo.
Uma reação.
Um relacionamento.
Uma escolha que você continua adiando.
Ou até uma parte sua que durante muito tempo acreditou que não poderia existir.
Não tenha pressa.
Algumas portas não se abrem quando são empurradas.
Elas se abrem quando encontramos segurança suficiente para olhar o que existe do outro lado.
E, às vezes, o que encontramos ali não é uma versão quebrada de nós.
É uma parte que estava esperando ser conhecida.
Uma semente para cultivar
Durante esta semana, observe um comportamento seu que costuma se repetir.
Não tente julgá-lo.
Apenas perceba.
Quando ele aparece?
O que você sente antes de agir?
O que costuma fazer?
O que essa reação talvez esteja tentando preservar, evitar ou alcançar?
E, finalmente:
“Existe outra maneira de responder que esteja mais de acordo com quem eu sou hoje?”
Às vezes, a transformação começa muito antes da mudança de comportamento.
Ela começa no momento em que conseguimos nos observar sem nos condenar.
✦ Notas do Coração
Talvez crescer não seja deixar para trás todas as partes de quem fomos, mas aprender a acolhê-las, compreendê-las e escolher, com mais liberdade, o que ainda queremos levar conosco.
Espero que você esteja bem.
Com carinho,
Regiani Rolim
Uma conversa importante
Este texto é uma reflexão psicoeducativa e não substitui avaliação ou acompanhamento psicológico.
Se você percebe padrões que causam sofrimento, prejudicam seus relacionamentos ou dificultam sua vida cotidiana, considere procurar uma psicóloga ou um psicólogo devidamente habilitado.
O processo terapêutico é singular e pode oferecer um espaço profissional para compreender sua história, ampliar o autoconhecimento e construir novas possibilidades.
Você não precisa atravessar tudo sozinho (a).