Quando aprender parece fácil demais: um olhar para as Altas Habilidades/Superdotação

Nem sempre aquilo que parece facilidade conta toda a história. Algumas crianças chamam nossa atenção porque aprendem rapidamente. Outras porque fazem perguntas que parecem grandes demais para a idade. Algumas demonstram uma memória impressionante, interesse intenso por determinado assunto, facilidade para perceber relações, criar soluções diferentes ou compreender conceitos antes mesmo de serem ensinadas formalmente.
Mas existe algo importante nessa conversa:

altas habilidades não significam simplesmente tirar boas notas.

E uma criança com altas habilidades também pode apresentar dificuldades, frustrações, desinteresse, conflitos na escola ou comportamentos que os adultos não sabem muito bem como interpretar.

É justamente aí que precisamos olhar para além do rótulo.

O que são Altas Habilidades/Superdotação?

As Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) envolvem um conjunto de características relacionadas a potencial elevado em determinadas áreas.
Esse potencial pode aparecer de diferentes maneiras: no raciocínio lógico e matemático, na aprendizagem acadêmica, na criatividade, nas artes, na liderança, na capacidade de resolver problemas, entre outras possibilidades.
Por isso, talvez seja mais adequado perguntar:

“Em que essa criança demonstra um potencial especialmente desenvolvido?”

do que simplesmente:

“Ela é inteligente?”

A segunda pergunta é ampla demais.
A primeira nos convida a observar a criança em sua singularidade.


Nem toda criança com AH/SD é igual

Uma criança pode apresentar grande facilidade para matemática e, ao mesmo tempo, encontrar dificuldades em outra área.

Outra pode demonstrar criatividade extraordinária, mas não necessariamente apresentar o mesmo desempenho acadêmico em todas as disciplinas.

Uma terceira pode ter uma memória muito desenvolvida, interesses profundos e uma maneira bastante própria de estabelecer relações entre informações.

Por isso, não existe um único “jeito de ser” de uma criança com altas habilidades.

E isso também significa que não devemos procurar apenas características estereotipadas.


“Mas ele vai tão bem na escola…”

Essa é uma situação interessante.
Às vezes, uma criança apresenta notas excelentes e, por isso, os adultos concluem que não existe nenhuma dificuldade.
Em outras situações, acontece o contrário: a criança possui potencial elevado, mas apresenta comportamentos que chamam mais atenção do que suas habilidades.
Pode haver resistência diante de atividades repetitivas, questionamento frequente de regras, necessidade de desafios, impaciência, frustração diante de erros ou uma diferença muito grande entre aquilo que consegue fazer e aquilo que demonstra em determinadas situações.

Isso não significa automaticamente AH/SD.
Também não significa automaticamente TDAH, ansiedade, dificuldades de aprendizagem ou qualquer outra condição.
Significa que existe uma criança que precisa ser compreendida.


Quando o comportamento conta uma história

Uma criança que levanta muitas vezes durante a aula pode estar entediada.

Mas também pode estar apresentando dificuldades de atenção.

Uma criança que questiona constantemente pode estar demonstrando pensamento crítico.

Mas também pode estar enfrentando dificuldades para lidar com limites.

Uma criança que termina rapidamente uma atividade pode ter facilidade naquele conteúdo.

Mas também pode estar deixando de se envolver porque a tarefa não representa um desafio significativo.

É por isso que observar apenas o comportamento, isoladamente, pode levar a conclusões precipitadas.

Precisamos perguntar:

O que acontece antes?

Em quais situações acontece?

Com quais atividades?

Com quais pessoas?

O que acontece depois?

E, principalmente:

o que essa criança está tentando comunicar através desse comportamento?

Potencialidade e dificuldade podem coexistir

Talvez essa seja uma das partes mais importantes dessa conversa.

Uma criança pode apresentar altas habilidades e, ao mesmo tempo, ter dificuldades de atenção, autorregulação, aprendizagem, aspectos emocionais ou outras necessidades específicas.

Também pode acontecer de uma dificuldade mascarar uma potencialidade — ou de uma potencialidade mascarar uma dificuldade.

Por isso, quando existe uma diferença significativa entre o que a criança demonstra saber e a maneira como consegue se organizar ou participar de determinadas situações, vale investigar com cuidado.

Não para encontrar rapidamente um diagnóstico.

Mas para compreender melhor quem é aquela criança e do que ela precisa.


Olhar para a criança inteira

Investigar AH/SD não deveria significar procurar apenas sinais de inteligência acima da média.

É importante considerar a história de desenvolvimento, os interesses, a aprendizagem, a criatividade, a maneira como a criança resolve problemas, suas relações, sua experiência escolar, suas emoções, seu contexto familiar e aquilo que os diferentes adultos observam.

E também é importante ouvir a própria criança.

Porque, antes de ser uma hipótese, uma classificação ou um resultado de avaliação, existe uma pessoa em desenvolvimento.

Uma criança que talvez esteja tentando encontrar seu lugar em um ambiente que nem sempre compreende sua maneira de pensar.


Talvez a pergunta mais bonita seja outra

Em vez de perguntar apenas:

“O que há de errado com essa criança?”

podemos começar perguntando:

“O que ainda não conseguimos enxergar sobre ela?”

Às vezes, uma dificuldade é realmente uma dificuldade que precisa de atenção.

Às vezes, um comportamento está comunicando uma necessidade.

Às vezes, existe uma potencialidade que ainda não encontrou espaço para florescer.

E muitas vezes existem várias dessas coisas acontecendo ao mesmo tempo.

Olhar para as Altas Habilidades/Superdotação é também aprender a olhar para além do desempenho.

É reconhecer potencialidades sem romantizá-las.

É acolher dificuldades sem reduzi-las à criança.

É investigar sem pressa de colocar um rótulo.

E é, sobretudo, criar condições para que cada criança possa desenvolver aquilo que tem de singular.


✦ Notas do Coração

Talvez algumas crianças não precisem que diminuamos aquilo que as torna diferentes.

Talvez precisem apenas que alguém tenha curiosidade suficiente para conhecê-las melhor.

Porque potencialidade também precisa de espaço, oportunidade e acolhimento para florescer.

Com carinho,
Regiani

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