O que estamos dizendo às crianças e adolescentes quando elogiamos apenas o resultado?

Toda vez que elogiamos apenas o resultado, podemos estar dizendo, sem perceber: “é isso que faz você ser bom”.
E, quando isso se repete, talvez a criança comece a acreditar que precisa ser boa para ser valorizada — e que errar significa deixar de ser boa.

Vai lá e ganha!”
“Quero ver você em primeiro lugar!”
“Você é muito inteligente!”
“Eu sabia que você conseguiria!”
“Você nasceu para isso!”

São frases que fazem parte do nosso cotidiano.

Ditas por pais, professores, familiares, treinadores e pessoas que amam e querem incentivar.

E, na maioria das vezes, são ditas com a melhor das intenções.

Queremos encorajar.

Queremos reconhecer.

Queremos celebrar uma conquista.

Mas talvez valha uma pausa para pensar:

o que uma criança ou um adolescente escuta quando recebe reconhecimento principalmente quando consegue, vence, acerta ou se destaca?

Porque entre aquilo que dizemos e aquilo que o outro escuta pode existir uma distância enorme.

A questão não é:

“Nunca elogie seu filho por uma conquista.”

Mas:

“O que mais estamos ensinando a valorizar?”

Resultado e processo.
Conquista e tentativa.
Talento e esforço.
Acerto e descoberta.
Sucesso e capacidade de lidar com o erro.

Talvez o problema não seja ensinar uma criança a comemorar quando ganha. Talvez seja esquecer de ensiná-la que ela continua sendo valiosa quando perde.

Porque uma pessoa que aprende que precisa acertar pode chegar a um ponto em que prefere não tentar a correr o risco de descobrir que não consegue.

Quantas coisas deixamos de experimentar quando aprendemos que precisamos ser bons antes mesmo de começar?

Em Mindset: A nova psicologia do sucesso, a psicóloga e pesquisadora Carol S. Dweck apresenta uma ideia que ajuda a compreender por que a maneira como falamos sobre capacidade, inteligência, talento e erro pode ser tão importante.

Ao longo de suas pesquisas, Dweck estudou diferentes formas pelas quais as pessoas compreendem suas próprias capacidades.

De maneira bastante simplificada, a autora apresenta dois padrões de pensamento: o mindset fixo e o mindset de crescimento.

No mindset fixo, existe uma tendência a enxergar características como inteligência, talento e capacidade como algo mais estável:

“Eu sou bom nisso.”
“Eu não tenho talento para isso.”
“Eu sou inteligente.”
“Eu não consigo.”
“Isso não é para mim.”

Quando a capacidade passa a fazer parte da própria identidade, o erro pode ganhar um significado muito maior.

Errar deixa de ser apenas não conseguir alguma coisa naquele momento.

Pode começar a significar:

“Talvez eu não seja tão inteligente quanto pensava.”

“Talvez eu não seja bom o suficiente.”

“Talvez as outras pessoas percebam que eu não consigo.”

E, quando errar ameaça a imagem que construímos de nós mesmos, evitar o erro pode parecer mais seguro do que tentar.

É aí que aparece uma situação curiosa:

Se eu só me sinto bom quando consigo, talvez eu precise evitar tudo aquilo em que existe a possibilidade de não conseguir.

E isso pode explicar, em parte, por que algumas pessoas deixam de experimentar coisas novas.

Não porque não tenham curiosidade.

Mas porque ser iniciante significa, inevitavelmente, não ser bom ainda.


E existe outra possibilidade.

Dweck chama de mindset de crescimento a perspectiva de que nossas capacidades podem se desenvolver por meio de aprendizagem, prática, estratégias, esforço e apoio.

Não significa acreditar que todos podemos fazer qualquer coisa ou que esforço, sozinho, resolve tudo.

Significa compreender que uma dificuldade atual não precisa se transformar em uma definição permanente sobre quem somos.

Existe uma diferença pequena na frase, mas enorme na maneira como podemos nos relacionar com nossas próprias capacidades:

“Eu não consigo.”

e

“Eu ainda não consigo.”

O primeiro pode fechar uma porta.

O segundo deixa espaço para uma possibilidade.


E talvez seja por isso que a forma como elogiamos importa.

Se uma criança ouve repetidamente:

“Você é muito inteligente!”

ela pode simplesmente receber isso como carinho e reconhecimento.

Mas também pode, dependendo da experiência e do contexto, começar a associar seu valor à imagem de alguém que é inteligente.

E então surge uma pergunta silenciosa:

“E se eu errar?”

Por outro lado, quando também reconhecemos o processo:

“Você tentou outra estratégia.”
“Você continuou mesmo quando ficou difícil.”
“Você percebeu onde errou.”
“Você pediu ajuda.”
“Você aprendeu algo novo.”

estamos mostrando que aprender não acontece apenas quando acertamos.

A tentativa também tem valor.

O caminho também importa.


Talvez precisemos mudar um pouco o que celebramos.

Em vez de apenas:

Você ganhou!

também podemos dizer:

Você se divertiu?

Em vez de apenas:

Você tirou a melhor nota!

também:

O que você aprendeu?

Em vez de:

Você é muito inteligente!

também:

Eu gostei de ver como você pensou para resolver isso.

Em vez de:

Você conseguiu!

também:

Você não conseguiu dessa vez. Quer tentar de outro jeito?

Porque existe uma diferença profunda entre ensinar:

Você é bom.

e ensinar:

Você pode aprender.


E talvez essa seja uma das maiores contribuições do conceito de mindset para a educação e para a vida:

não transformar aquilo que conseguimos fazer hoje em uma sentença sobre aquilo que seremos capazes de fazer amanhã.

Uma criança não precisa crescer acreditando que precisa ser naturalmente talentosa para experimentar.

Um adolescente não precisa saber de antemão que será bom em alguma coisa para ter permissão para tentar.

E um adulto também pode descobrir que algumas das frases que repete sobre si mesmo talvez tenham começado muito antes:

“Eu não tenho criatividade.”
“Eu não sou bom com números.”
“Eu não consigo falar em público.”
“Eu não levo jeito para isso.”

Talvez algumas dessas frases sejam menos sobre quem somos e mais sobre o que ainda não tivemos oportunidade, segurança ou disposição para aprender.

E talvez exista uma palavra pequena, mas poderosa, capaz de abrir espaço para outra possibilidade:

Ainda.

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